Nova semana laboral já é realidade em países
de diferentes continentes e pode sacudir o
mercado de trabalho em todo o mundo.
Semana com Menos Dias?
Um novo fenômeno tem acontecido nos mercados de trabalho de países como Emirados Árabes, Escócia, Espanha, Islândia e até no Japão. É a jornada laboral com quatro dias na semana — com os mesmos direitos trabalhistas assegurados —, em vez de a tradicional rotina de segunda a sexta-feira, em países ocidentais, ou de domingo a quinta-feira em países do Oriente-Médio.
Os Emirados Árabes, que já haviam adotado o final de semana para sábado e domingo desde o início de 2022, incorporou agora a sexta-feira (após o meio-dia) como parte dos dias de descanso. A mesma lógica aconteceu na Espanha, que adotou a segunda-feira como a continuação do fim de semana.
As razões pelas quais os países têm escolhido estender ou antecipar o fim de semana são distintas, mas todos possuem um ponto em comum: a pandemia. Com a popularização do home office e do trabalho híbrido, foi constatado o aumento significativo de doenças relativas ao exercício laboral, além de traumas causados pela morte de familiares.
Segundo a professora dos cursos de Gestão de Pessoas da FGV-RJ Anna Cherubina, as saúdes física e mental se transformaram na grande preocupação mundial. Por isso, as empresas têm repensado suas rotinas para conservar a saúde de seus colaboradores e, também, para evitar a rotatividade após o movimento mundial denominado “A Grande Renúncia” (pedido de demissão em massa em prol do trabalho remoto).
“As empresas entenderam que precisam investir na segurança psicológica de seus trabalhadores a fim de garantir seu bemestar, equilíbrio e as mínimas condições de um ambiente de trabalho seguro do ponto de vista emocional.”
Anna Cherubina,
professora dos cursos de Gestão
de Pessoas da FGV-RJ”
“As empresas entenderam que precisam investir na segurança psicológica de seus trabalhadores a fim de garantir seu bem-estar, equilíbrio e as mínimas condições de um ambiente de trabalho seguro do ponto de vista emocional. As sociedades de vários países já sofrem diretamente tais efeitos pela sobrevivência e buscam a sustentabilidade referente às pessoas e ao planeta em geral”, explica.
Vantagens
Já a também professora Lucilene Morandi, pesquisadora da faculdade de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca as vantagens do novo modelo de trabalho. Entre eles estão: 1) proporcionar mais tempo do colaborador com sua família; 2) redução da poluição ambiental, com a menor circulação de carros nas cidades; e 3) redução de gastos recorrentes nas empresas, tais como energia, água, papel e produtos de limpeza.
Perguntada sobre a possibilidade de o modelo ser empregado no Brasil, a professora diz que é possível,
porém ela acredita mais na ampliação do Home Office e do trabalho híbrido. Destaca, ainda, que o mercado de trabalho brasileiro é bastante estratificado e que há de um lado trabalhadores formais — com definição de horas e condições de trabalho bem definidas — e, de outro, os informais, cuja renda depende das horas trabalhadas e que podem estar em condições de trabalho diversas.
“A opção sobre a redução da jornada de trabalho semanal certamente estará disponível, apenas, para uma menor parcela da mão de obra empregada. No Brasil, e também na América Latina, cerca de 60% da mão de obra empregada é informal, o que implica que essas pessoas tenham condições mais precárias de trabalho e menor ou nenhum acesso às regras e leis protetivas do trabalho”, destaca.

Já a pesquisadora da FGV, administradora e doutora em História da Ciência, Juliana Genevieve, relata que algumas empresas brasileiras já ensaiam adotar o modelo, porém não há percentual que indique ser uma tendência no Brasil nos próximos meses ou anos. Ela ressalta que há nichos mais propensos em adotar o modelo, devido à semelhança de seu regime de trabalho atual, tais como startups e empresas com culturas de trabalho mais modernas, como empresas de Tecnologia da Informação (TI). A administradora destaca, ainda, que em países pobres periféricos, um dia a mais de descanso pode se transformar em mais trabalho, com prestação de serviços para outras empresas a fim de complementar a renda. “Ao contrário do intento principal, isso poderia levar o colaborador a um esgotamento ainda pior do que se trabalhasse na mesma empresa”, avalia.
“Um grande desafio para os generalistas é destacar seus diferenciais, afim de se tornarem mais valiosos para a organização.”
Juliana Genevieve,
pesquisadora da FGV, administradora
e doutora em História da Ciência
Mindset
Segundo Anna Cherubina, professora nos cursos de Gestão de Pessoas na FGV, o mercado de trabalho mudou
drasticamente após a pandemia, por isso é preciso mudar também do mindset corporativo tradicional (cultura ou padrões de pensamento) para o mindset digital (focada na era digital e atual). Ela conta que o fenômeno sanitário levou as pessoas a repensarem suas carreiras, o equilíbrio entre vida e trabalho, bem como trouxe reflexões essenciais que contribuíram para a decisão dos países que adotaram a nova jornada.
Cherubina ressalta que as pessoas descobriram que não precisam ir à empresa para trabalhar, e que conseguem sobreviver sem estarem vinculadas exclusivamente a uma empresa. Daí o aumento expressivo de pedidos de demissão em massa, em todo mundo, movimento conhecido como “Grande renúncia” ou também como a “Grande debandada”.
“As empresas e negócios terão de se reinventar, mudar o mindset para ser mais ágil em seus processos de adaptação e mudanças para alcançar tais movimentos e transformações. É preciso fazer uma leitura dos novos comportamentos para agir de forma assertiva — rever políticas internas, estratégias e diretrizes quanto à gestão de seu capital humano e intelectual”, finaliza.



