Segundo dados amplamente divulgados, o Brasil está em terceiro lugar no uso das Redes Sociais, perdendo apenas para Índia e Indonésia. Poderia ser algo a se orgulhar, se não fosse as possíveis implicações que seu uso inadequado tem causado.
Seu excesso pode ser uma das hipóteses para que o país tenha sido descrito como o mais “ansioso” do mundo. O número de pessoas que relatam impacto em sua saúde mental, só aumenta, inclusive sendo disseminado nas próprias redes sociais. Seja em forma de desabafo, ou como um certo pedido de “socorro”.
Vida real e virtual facilmente se misturam. Ser bem-quisto, admirado, se confunde com o número de views e curtidas recebidas. Como se fossem sinônimos de alguma aceitação. Nessa dimensão, o TER parece prevalecer, enquanto o SER da mostras de estar sendo deliberadamente negligenciado.

Esse boom virtual, parece ter afetado nossa memória. Grandes nomes estão sendo esquecidos. A maior parte da nova geração sequer sabe quem foi Zilda Arns, médica que dedicou sua vida em prol da vida de milhares de crianças através de seu projeto junto a Pastoral da Criança. Brasileira que foi indicada postumamente ao Nobel da Paz.
Momentos de caos podem ser também de grande oportunidade. Ao olhar nos olhos do caos da fome, Zilda Arns nutrida de sua compaixão uniu seus esforços, no intuito de criar uma rede virtuosa e devolver a todos aqueles a quanto alcançasse, o mínimo da dignidade. Dessa forma, por anos à fio, entregou-se a sua missão, renunciando a pequenos luxos, como o dormir em sua própria casa, e lançou-se a viajar por locais inóspitos, onde por vezes, dormira em redes improvisadas, ou resguardada por paredes de igrejas em locais remotos. E assim, numa noite de janeiro, no Haiti, não acordou, numa noite sacudida por um terremoto.
Zilda, não fazia questão de anunciar seus números, seus feitos, embora fossem muitos. Ao contrário, sempre soube quem era e a que veio. Seu propósito era ajudar as pessoas em seu caminho da dignidade humana. E assim, o fez.
Poucos anos depois, novo caos e, portanto, uma possível nova oportunidade. Apesar do ambiente caótico, me nutri de esperança.
Vi muitas pessoas engajadas e comprometidas com as virtudes, criando lives nas redes sociais. Artistas fazendo pocket shows, no intuito de aliviar a tensão e o medo causado pela incerteza.
As aulas transferidas para o modelo on line, o trabalho remoto e tantas outras variáveis surgindo nesse caldo, imaginei que poderia ser a chance para sairmos da “caverna” e darmos um passo evolutivo com a disseminação de pílulas de sabedoria, algo promissor. Isso, se seguisse como no ritmo acima descrito.
Eis que então, nessa “onda” nascida em boa parte na pandemia, me deparo com um paradoxo. Alguns, aproveitando o contexto da fragilidade humana num contexto de vulnerabilidade, notaram que suas “vozes” poderiam ecoar rapidamente e iniciaram movimentos para explorar esse novo nicho. Um mercado potencial.
Fórmulas foram adotadas por alguns influencers do momento, com o único objetivo: lucrar através da viralização.

Os conteúdos geralmente oferecidos, apelam para as emoções, chega através de voz firme, composto com muitas frases de impacto. Quanto ao assunto? Geralmente pífio. Esses interlocutores, nas redes sociais, aproveitam para passar a imagem de que são bem-sucedidos em todas as esferas. Não economizam em postar fotos e/ou vídeos elaborados, investindo grandes somas na edição, maquiadores profissionais, para se exibirem: em momentos familiares, em jatinhos particulares, viagens exóticas com algum destino internacional. A fórmula ainda apela para um estilo de vida saudável, que é mostrado através de belos corpos dentro da academia, mas que pela maquiagem e cabelos impecáveis, por si só, já demonstram certa desconexão.
No contexto familiar, falam sobre o orgulho de se ter uma família construída em valores, ao mesmo tempo que tratam mal seus próprios seguidores. Ao concederem entrevistas em TVs abertas, riem quando são expostos às questões polêmicas, como o apontamento de suas mentiras.
O que deveria ser motivo de constrangimento, é substituído quase que imediatamente pela soberba do orgulho ao admitirem usar de artimanhas, para conseguirem mais engajamento com o auxílio de algoritmos. Se gabam de ter o perfil cheio nas redes sociais e ignoram aqueles que lá não estão, como se não existissem.
Mas, quem não existe mesmo?
E, quanto a Zilda?
Zilda é para mim, uma REFERÊNCIA.
A simplicidade de Zilda era em manter o essencial, em detrimento do supérfluo.
E, quanto aos demais? Os demais…



