O crescimento da tecnologia, a cortina de fumaça no papel da desumanização das instituições

O mundo pós pandemia, promoveu uma corrida pela tecnologia, seja por promover consultas a distância, na automatização dos processos, na oportunidade de criação de novos negócios.

Contudo, nessa busca desenfreada, temos empresas se “perdendo” no uso dessas ferramentas. Uma frase conhecida, nos diz que “a diferença entre remédio e veneno é a dose”.

Tenho percebido que muitas empresas/profissionais tem feito da tecnologia, não uma aliada, mas uma barreira, criando uma lacuna entre seus clientes.

Essa falta de clareza, motivadas por uma pseudovisão estratégica, impulsionadas muitas vezes pelo famoso “Time is Money”, pode custar caro num futuro próximo. Essas escolhas se refletem por exemplo: na burocracia ao tentar um reembolso junto ao plano de saúde, numa consulta onde médicos não tocam/olham o paciente (ficando presas apenas à laudos). Outro conhecido exemplo, está na tentativa de conversar com um Ser humano em algum SAC, pois costumamos ficar a mercê de gravações intermináveis com músicas e jingles de gosto no mínimo duvidoso.

Tudo isso, por uma decisão simplista de optar por simplificar o que não deveria ser simplificado, que é a atenção, o olhar ao cliente.

Vimos um boom de escolas EaD durante o início da pandemia. A necessidade de manter alunos ativos, apesar das restrições. Uma promessa despontava, o resgate de um “tempo perdido”, novas oportunidade identificadas. Sendo uma grande descoberta, a de não precisar de ambiente físico, motivo de altos custos para as organizações. Assim, mensalidades a preços atrativos vislumbravam outros públicos, de uma realidade menos favorecida e disposta a investir na obtenção de uma Formação (assim mesmo com F maiúsculo), como Platão acreditava há mais de 2.000 anos.

Doutores, Mestres, Professores entusiasmados com a possibilidade de um alcance maior, acreditando na verdadeira Formação através da educação, correram reciclar seus modelos. Mergulhando noite adentro, semanas, meses à fio em busca de criatividade para ministrar suas aulas mediadas pela tecnologia. A pergunta recorrente era: “Como criar dinâmicas interessantes em grupo de maneira a engajá-los verdadeiramente?” Para citar apenas uma delas.

O número de alunos era crescente. Não havia mais fronteiras, alunos de todos os estados, países poderiam participar….

Mas, eis que uma nova modalidade de prateleira surgiria. A pauta, parecia muitíssimo nobre, aproximar as pessoas, promover possibilidades e facilitar o acesso ao conhecimento. Com isso, nasceu o argumento da necessidade de as aulas gravadas. Aulas essas, replicadas por meses, anos. Indícios de um caminho sem volta.

E àqueles Mestres? Ah, muitos dispensados pelas Instituições, via Pop Up! Olha que ironia. Em pleno 2022 e vemos ainda imperar a visão utilitarista.

E à respeito daqueles alunos que visavam uma Formação? Eis a grande lacuna mencionada pouco acima. A expectativa criada tanto pelos alunos potenciais, como pelos Professores, foi bruscamente frustrada. De três protagonistas, apenas um foi beneficiado, guiados apenas por interesses econômicos. Como fosse possível reduzir matematicamente tudo, inclusive o mundo. Nessa linha, Mariotti disserta:

“Como toda utopia, a ideia de progresso, no fundo, tem propósitos tranquilizadores. Por isso, seu grande objetivo é a previsibilidade, que pretensamente seria conseguida pela matematização do mundo e da vida. Ela deixa de lado o mito e procura o logos; busca a racionalização e a repetição e foge da racionalidade e da diferença. Trata-se, portanto, de uma jornada em direção à negação do humano”.[1]

Contudo, o ensinar, vai muito além do transferir informação. Informação sem troca, não gera conhecimento, tampouco sabedoria. Um Doutor, um Mestre, um Professor presente, pressupõe estar presente, mediados ou não por tecnologia.

O mercado está escolhendo a tecnologia e automaticamente dispensando o Capital Humano, como num reducionismo primário, uma equação linear. O que falta para compreender a complexidade do Ser Humano em si?  A grande ironia é que empresas conduzidas por pessoas estão agindo de forma automática como máquinas desprovidas de consciência.

Quem portanto estaria na condução?

Ao que tudo indica, estamos num sentido contrário ao que pregava Platão em sua A República. A um sentido de ruptura e “DESFORMAÇÃO”, não por conta da tecnologia, mas, pela ausência da humanização das instituições.

A tecnologia segue como tendência e logo, poderemos atribuir a ela a desvirtude por nossas escolhas equivocadas mas quem demonstra esse ruído é o ser humano. Aliás, a ausência do SER. Se tivéssemos a ousadia de agir com humanidade, seríamos mais virtuosos e a tecnologia não levaria mais a fama.

                                                                                                           Juliana Genevieve


[1] Mariotti, Humberto., Pensamento Complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável, 65

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